retalhos cerzidos

"eles passarão... eu passarinho"

Textos

desilusão

Oi Olívia. Bom dia.

Desde quarta-feira que eu penso em te enviar uma carta que escrevo já têm uns dias, uma carta contando o que aconteceu na véspera, na terça, no HGE e depois na casa do seu irmão. Você tem o direito de saber sobre a sua avó e como aconteceu o extremoso e definitivo entrevero entre mim e o Gregório. Na casa dele, tudo aconteceu tão rápido que nem não se tem espaço pra quaisquer versões de meias verdades, inda mais pra privilegiar a metade nem tão verdadeira.

É importante que eu te avise, Olívia, que aqui eu falo, que aqui têm cenas horrorosas, que falo sobre coisas bem delicadas e pesadas, que te conto fatos.

Olívia, no HGE, a consulta da minha Mãe no setor Cirurgia Plástica foi muito boa, a ferida praticamente fechou... O capitão/médico — e não médico/capitão —, me disse que, por ele, ela estaria liberada, de alta; porém, como ela, Mamãe, como ela foi encaminhada à Cirurgia Plástica por indicação do setor dermatológico, a alta tem de vir de lá.

Até aí, tudo muito lógico, pragmático ao funcionamento.

Eu e Mamãe chegamos pra consulta-revisão, chegamos à sala de espera 15 minutos pro meio dia, pra consulta às 13h — prefiro aguardar antes do que depois, como um dos últimos. Sempre na esperança de dar tempo de eu capinar fora, de vir aqui pra casa ainda no mesmo dia. Trem, ônibus, motocicleta... Também, chego cedo pra estar com os médicos, enfermeiras, pra ser atendido por todos ainda descansados, recompostos de paciência e de bom humor.

Como disse, na Cirurgia Plástica foi ótimo, e então fomos à Dermatologia. Chegamos na sala de espera às 13h:30 e ficamos ali nessa sala enorme e bem cheia, com chamamentos a vários e variados setores — dermatologia, ortopedia... tudo por ordem de chegada. Depois dum tempo, um bom tempo, Mamãe sentada numa cadeira de rodas bem larga, até bem “confortável”, resoluta ela ameaça se levantar, ameaça ir embora pra casa, pra extinta Rua Montenegro 190... Fraca, se aquieta emburrada. Inda bem que levei jujubas da Casa Pedro e nas crises de ansiedade, assim a acalmava.

Bom, finalmente, últimos, fomos atendidos por uma capitã/médica. Ela disse que em tal documento, documento que eu fui buscar nos cafundós — deixando Mamãe sozinha aos olhos dum dos soldadinhos —, fui buscar o documento noutro prédio doutro quarteirão. Mas a capitã diz que ele, o documento, ele não falava duma coisa e que precisaria ir à Cirurgia falar com o capitão/médico de lá, saber não sei o quê. No que eu disse: doutora, capitã, o capitão Guilherme, quem a operou, ele me disse que a ferida fechou, que a minha Mãe, por ele ela tá liberada, porém... No que a capitã/médica chama um coronel/médico/chefe e o questiona sobre o tal documento, o resultado do exame. E o coronel/médico/chefe me diz que tenho de voltar à Dermatologia Geral na quinta-feira, às 8h:00, pra aí, pra daqui ir à Cirurgia Plástica... Caralho — evidentemente que na hora eu não descaralhei, não destrambelhei assim, e, meio sem entender, falei: “Doutor, a minha Mãe tem 94 anos, tem Alzheimer; eu moro num outro município, um um pouco longe daqui e, pra eu estar aqui às 8 da manhã, é bem difícil, quase impossível”. Não, ela não precisa vir, vem só você ou outro responsável... E eu: mas, doutor, não é possível de daqui da dermatologia, pela internet ou por qualquer dispositivo eletrônico interno, não é possível de se enviar um pedido daqui pra lá, pra Cirurgia, e aguardar a resposta de lá pra cá? É preciso de eu pessoalmente vir aqui pra depois ir lá, isso é necessário???

Nem não me responderam.

Saímos do HCE já noite — o hospital/quartel às moscas, só uns soldadinhos perambulam pelo pátio. Mamãe de saco bem cheio, querendo ir pra Rua Montenegro... Preocupada, diz que perdera a chave do apartamento e pergunta se eu poderia ficar um pouco lá com ela, “só até a empregada chegar”... Enfim, chegamos à Casa. A moça que recebeu Mamãe, quem nos atendeu, a mesma moça de quando saímos, ela diz que na Casa, todos ali ficaram preocupados com a demora. Pedi sinceras desculpas.

Enquanto lá no HCE, por eu ficar meio atarantado com as inconsequências dos milicos, eu não lhes passei o andamento ao vivo, ao Rona, ao Gregório e a você, Olívia, porque a joça do meu celular, mesmo nos “dados móveis” e com crédito, fora alcance do waifay daqui ele não transmite sinal!

Bom, fui pro Gregório, onde o inferno do meu dia se completaria — ou, na verdade, onde a minha grande decepção na vida aconteceria. Sim, visto que, se dependesse “apenas” do meu desconforto lá com os imponderados milicos, se “só” isso, já meio acostumado eu me tranquilizaria logo, simplesmente bastaria ser ouvido pelo meu dia bem cansativo.

Da Casa indo ao Gregório, já noite, eu fiquei meio perdido. Pra ir da Voluntários da Pátria pro Largo do Machado/Catete, me indicaram pegar um ônibus que fosse pela praia do Flamengo e saltar à rua Paissandu, daí, subi-la. O cara ainda diz pra eu tomar cuidado com motoqueiros roubando celulares — “a Paissandu é escura”. Com calo no dedão do pé, fui. Quase lá, paro na Itália pruma casquinha de menta. Chego ao Gregório meio furibundo, esgotado e indignado conto como foi no HGE: ... Primeiro, claro, eu falo da minha Mãe e tudo mais, e então falo das agruras no hospital: cambada! Lá, tem-se que lidar com milicos inconsequentes feito o Pazuello, o responsável por tantas mortes quando logisticamente embaralha Amapá com Manaus, assim desviando vacinas contra a Covid... No que o meu filho se exaspera e aos gritos diz “Pode parar! Na minha casa, não, aqui eu não permito isso...”. “Isso”, ué, isso o quê, você não permite de eu dizer que aquele general, então ministro da saúde do Besta-Fera, que o especialista em logística é responsável pela morte dum tantão de gente, com a anuência, com o descaso proposital daquele capitão do exército, vira-lata e genocida???

Aí a coisa pegou fogo. O cara parte pra cima de mim gesticulando e aos berros. Tenso, empertigado, se põe bem perto de mim, tão perto que pouco pude me mexer; sinto o hálito, perdigotos, seus olhos esbugalhados parecendo possuídos fuzilam os meus espantados; braço flexionado e punho cerrado junto ao meu rosto, assim sugerindo uma puta disposição de socar a minha cara.

Que cena terrível, inesquecível!

Recolhi meus trapos e capinei fora.

Hoje é sexta-feira e, passados alguns dias do acontecido, te escrevendo eu fico surpreso com tudo, tudo tão triste. Então atrás de explicações, ajuntando pauzinhos relembro cenas bobas acontecidas nesse nosso relacionamento, eu com ele anos afora, quase 44, e constato, Olívia, hoje entendo que aquela reação completamente desproporcional foi o extravaso dum desejo remoto até então acanhado, contido; entendi também que estumado por influências próximas, mas ocultas.

Nem sei bem por quê, lembrando da palavra “desproporcional”, do seu significado, eu lembro de reações à reação extremamente desproporcional de Israel à Palestina, lembro de se justificar os ataques pra exterminar o povo palestino, tudo em resposta à violenta agressão de terroristas do Hamas, uma raça paga. Nestes tempos tão tristes, basta justificar-se —mesmo que pra si mesmo —, e já se parte pro extermínio!

Tão desumano!

Bom, voltando à Mamãe. O cirurgião viu e refez o curativo. Disse que tá ótimo, que ela, a minha Mãe, é bem forte... Entendi que Mamãe tá de alta, porém, a alta oficial tem de vir da Dermatologia, e pra isso tem-se que ir lá na quinta, dia 24/07, às 8h00. Acontece que, pela hora, não dá de eu ir. Na quarta-feira eu perguntei ao Rona se ele poderia, ou algum dos seus filhos poderiam ir lá. E lhe disse: olha, Rona, numa boa, o tumor tá sarado e, segundo o capitão/médico que a operou, ele disse que não tem possibilidade de se alastrar pra outros órgãos. Então, por mim, Mamãe tá de alta, sem risco algum de metástase, e isso me basta! Quê que você acha de deixar tudo como está, sendo que está tudo bem com Mamãe?! Só se deve lembrar a Casa de passar a tal pomada cicatrizante todos os dias depois do banho, e proteger com gases. Isso, por uns poucos dias, até a ferida fechar completamente, o enxerto, a pele enxertada “engrossar” um tanto. A pomada pode ser comprada pela Casa. E então o Rona ficou de pensar sobre, mas já disse que nem ele nem os filhos podem ir ao HCE nesta quinta-feira, e que, já que não há urgência, que na outra quinta-feira ele irá. Então tá.

No mais, Olívia, por tudo acontecido, desde então eu tô praticamente sem dormir, exausto. Muito triste.

Na terça-feira eu saí de casa às 5h:30 e cheguei de volta em Paty às 22h:30. Tudo vazio, um frio medonho. Tirei um amigo taxista, o Ruck, tirei ele do seu descanso pra me levar, pra me trazer aqui ao Paiol Velho. Nem sei como que o meu celular deu sinal naquela hora. Olha, e se não desse, sifú!

Por tudo, mas muito mais pelo triste, pelo patético final, aquele dia foi terrivelmente infernal!

Olívia, Filha, um beijo e até.

Em tempo: inda há pouco, te escrevendo esta carta, eu com aquela imagem da terça-feira à noite azucrinando a cabeça, relembro quando o meu vizinho chegou aqui à servidão e, na altura da minha janela, completamente descontrolado chegou berrando “Germino, seu maconheiro, eu vou te dar um tiro na cara”, e assim rondando o terreno foi à porteira aos berros... Terror dum covarde! Ele iria me dar um tiro na cara por eu lhe pedir que abaixasse o volume da música. Na terça-feira agora, quase fui porrado na cara pelo meu próprio filho, surrado por eu lhe dizer da incompetência inconsequente dos milicos, do general/ministro da saúde responsável por milhares de pessoas mortas.

Banalização da violência — tempos terríveis!

É isso, Olívia. Suponho que você já ouviu outra versão dessa história. No entanto, como disse, por essa história ter acontecido de maneira tão ligeira, relâmpago, nem não dá margens pra quaisquer fake news, distorções dos fatos. Assim como te conto foi como aconteceu, a desinteligência, a violenta agressão que por um triz não vira a tragédia dum velho de 69 anos espancado, dum pai levar uma puta surra dum dos seus filhos, o de 43. O estúpido motivo, a provocação foi eu apontar o besta-ferismos dos bestas-feristas. Mas, como tô concluindo, isso foi apenas um oportuno provocador, o estopim. “Um velho levando uma surra dum jovem — pai e filho...”. Não, eu não dramatizo, apenas te conto o acontecido, fato que por si já é dramático, triste pra caralho! Pelo menos pra mim, sim, e definitivamente escroto.

Decepcionante e triste, com esse terrível episódio entre eu e o meu filho, quero duvidar das possíveis possibilidades — a que nele ele se perceba, vista a carapuça, e por se lhe encaixar tão bem, feito luva, assim nem se aperceba; ou, se sim, nem não se importa, assume.

Tempos tão sombrios...

Germino da Terra
Enviado por Germino da Terra em 18/02/2026
Alterado em 09/03/2026


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